As Desventuras da Diferença

É legal ser exótico, excêntrico...Todo mundo quer ter um ar de “algo mais”. Mas será que existe um limite para tais diferenças? Existe uma linha imaginária que divide o socialmente aceitável das provocações?
Meninas portadoras de Síndrome de Turner (uma anomalia cromossômica sexual, cujo cariótipo é 45 X e incidência 1:2130) apresentam baixa estatura e outros sinais dismórficos; qualificando-as, primariamente de, digamos, “diferentes”.

Seu quadro torna-se mais perceptível ao olhar do leigo na adolescência, devido a dois fatores: é nesta faixa etária que se dá o segundo estirão do crescimento (portanto, se elas não crescem, sua baixa estatura ficará mais evidente); o outro fator está relacionado ao desenvolvimento puberal, principalmente, no que diz respeito à menarca / menstruação.

Ser motivo de chacota não é uma sensação aprazível a ninguém (exceto aos masoquistas de ficção); portanto, tais meninas tendem ao isolamento social ou, antes, ao relacionamento com grupos de faixa etária inferior (a fim de que suas características patológicas não se tornem evidentes). Contudo, tal comportamento só faz perpetuar uma situação de infantilização (que é fomentada, também, pela família, que tende a tratá-la de forma superprotetora, ao enxergá-la em relação à sua estatura e não, quanto à sua idade cronológica).

Tal isolamento, conduz a dificuldades de relacionamentos amorosos.
Contudo, a infertilidade foi descrita como o pior grau de stress emocional vivido por tais mulheres, levando-as a quadros depressivos com conseqüências negativas em relação à auto-estima e sexualidade.

Em artigo publicado por Ligia Suzigan, Roberto Silva e Andréa T. Maciel-Guerra (“Aspectos Psicossocias da Síndrome de Turner” in Arq Bras Endocrinol Metab Vol 49 n.º 1 Fev 2005), foi feita uma extensa revisão de literatura a respeito dos aspectos psicológicos que envolvem a referida Síndrome. Aspectos em relação às comorbidades psiquiátricas, problemas de comportamento e dificuldades específicas de aprendizagem foram levantados. O artigo é finalizado com o esclarecimento do suporte psicológico das pacientes e acompanhamento dos familiares e eventuais professores, cujo objetivo é promover uma adequada aderência ao tratamento; compreensão da dimensão e caráter de cronicidade de sua doença; e, possibilidade de levar uma vida normal.

O caso das meninas portadoras de Turner serve para refletirmos e voltarmos às questões do início: Quem determina os limites do aceitável das diferenças?

Saber-se portador(a) de uma doença / síndrome é o primeiro passo para o sucesso do tratamento; no caso de não haver cura, há controle e saber-se doente é ter consciência dos cuidados médicos específicos que a doença requer. Não sabote o médico que tem dentro de você e que está tentando tratá-lo!


Escrito por Silvia Cléa às 22h56
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