Líbia: um exemplo de Medicina Legal

Desde que comecei a orientar os residentes de Medicina Legal do Instituto Oscar Freire da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, há 2 anos, a tarefa mais árdua tem sido encontrar na literatura bons exemplos de laudos médicos para que lhes sirva de exemplo. Discorro aqui, sobre um raro caso de laudo médico internacional de excelente qualidade.
Iniciemos com o caso: o processo de 5 enfermeiras búlgaras (Valia Tcherveniachka, Kristiana Valcheva, Nassia Nenova, Valentina Siropoulo e Snejana Dimitrova) e 1 médico palestino (Ashraf Juma) acusados de contaminação dolosa de 426 crianças pelo HIV no Hospital Pediátrico Al-Fateh de Benghazi.
A história começou em 1998, com o diagnóstico de 2 casos de AIDS no referido hospital. Os réus em questão além de outro médico búlgaro são apontados como responsáveis pelas autoridades.
O primeiro processo judicial (fevereiro de 2000), ou seja, o julgamento da Corte Popular de Benghazi (que é a primeira instância do sistema judicial libanês), foi baseado nos depoimentos dos acusados que, mais tarde, soube-se, terem sido obtidos através de torturas; e, no suposição de Mouammar Kadhafi (chefe de Estado), que tais acusados estavam à serviço da CIA e do Mossad (serviços de inteligência, respectivamente, dos EUA e de Israel). Passando, então o caso, à alçada criminal.
Em julho de 2003 é realizado o primeiro processo criminal em Benghazi contra os réus. Contudo, a Líbia retira a acusação de complô envolvendo os serviços de inteligência americano e israelense. Durante tal processo é utilizado um laudo médico pericial, elaborado por Luc Montagnier e Vittorio Colizzi, que conclui que a infecção no referido hospital é advinda a questões de falta de higiene, que tiveram início em período prévio à chegada dos réus ao hospital, ou seja, entre 1994 e 1997.
Em 6 maio de 2004 as 5 enfermeiras são condenadas à pena capital e o médico palestino, à 4 anos de prisão. A corte condenou, assim, os acusados a indenizar os parentes e tutores das crianças contaminadas.
Em 5 de julho de 2004, foi protocolada a apelação.
Indignado com os resultados. Extrapolando suas funções de perito. Sensibilizado com a situação de 6 servidores da saúde que acredita inocentes, escreve diretamente ao chefe de Estado Mouammar Kadhafi, em 6 de julho de 2004. Leia a carta aqui.
Em 25 de dezembro de 2005, a Corte Suprema de Trípoli aceitou reabrir o caso, o que aconteceu a partir de maio de 2006, com o procurador reapresentando a queixa contra os 6 réus. A última audiência foi em novembro.
Durante este ano, sobretudo no final, houve uma grita geral da comunidade científica, com protestos em várias localidades e meios, todos acentuado a inocência dos acusados. Jornais científicos, como Science, The Lancet, NEJM e Nature, dedicaram editoriais e artigos para a discussão do tema e sobretudo para enfatizarem críticas sobre uma acusação sem critérios científicos.
Em 19 de dezembro de 2006 foi dada a sentença, condenando-os todos à pena capital.
Entraram, agora, com apelação, junto à Corte Suprema Libanesa.

Para continuar a acompanhar o caso pela blogosfera, comece aqui.



Escrito por Silvia Cléa às 18h49
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Otimismo, uma questão de ciências!

Em comemoração ao seu 10º aniversário, o portal Edge fez a seguinte pergunta aos seus colaboradores: Com quê, especificamente, você está otimista? O Edge é constituído por cientistas, artistas e pensadores de várias áreas do conhecimento; congrega, na verdade, a nata dos pensadores da atualidade. Há muitos laureados pelo prêmio Nobel entre eles.
Foram 160 os depoimentos recebidos: Robert Trivers, Nathan Myrhvold, George Smoot, Marvin Minsky, John McCarthy, Nancy Etcoff, Oliver Morton, Bart Kosko, David Buss, Brian Greene, Francesco De Pretis, Corey Powell, Roger Bingham, Alison Gopnik, Robert Sapolsky, Paul Steinhard, Beatrice Golomb, Vittorio Bo, Marcel Kinsbourne, Martin Rees, Ian Wilmut, Barry Smith, Larry Sanger, Steven Strogatz, Mark Pagel, Joichi Ito, Jill Neimark, Leon Lederman, David Deutsch, Frank Wilczek, Cory Doctorow, David Bodanis, Alex (Sandy) Pentland, Marcelo Gleiser, Brian Eno, Philip Zimbardo, Colin Blakemore, W. Daniel Hillis, Garniss Curtis, Mahzarin Banaji, Joel Garreau, Leonard Susskind, Esther Dyson, Mihaly Csikszentmihalyi, Stewart Brand, Andy Clark, Steve Grand, Jason Calacanis, Jaron Lanier, Richard Dawkins, Nicholas Humphrey, Chris Anderson, Karl Sabbagh, David Berreby, Stephen Schneider, Tmothy Taylor, Gergory Benford, Roger Highfield, Rudy Rucker, David Dalrymple, Paul Davies, Scott Sampson, Sherry Turkle, Gary Marcus, Xeni Jardin, Thomas Metzinger, Helen Fisher, Dan Sperber, Paul Saffo, Gregory Cochran, Michael Wolff, Gloria Origgi, Jamshed Bharucha, Diane Halpern, Anton Zeilinger, Clay Shirky, Neil Gershenfeld, Rodney Brooks, Maria Spiropulu, J. Craig Venter, Marco Iacoboni, Eduardo Punset, Jordan Pollack, Adam Bly, Marti Hearst, Tor Nørretranders, Robert Shapiro, David Pescovitz, Judith Rich Harris, Lee Smolin, Simon Baron-Cohen, Max Tegmark, Elizabeth Loftus, Seth Lloyd, Ernst Poppel, Gino Segre, Philip Campbell, Terrence Sejnowski, Chris DiBona, George Church, Kai Krause, Jonathan Haidt, William Calvin, James Geary, Charles Seife, David Gelernter, Andrian Kreye, Randolph M. Nesse, Freeman Dyson, Lisa Randall, Douglas Rushkoff, Matt Ridley, Ray Kurzweil, Sam Harris, Leo Chalupa, Sue Blackmore, John Horgan, Jared Diamond, Nassim Taleb, Rebecca Goldstein, Geoffrey Miller, Brian Goodwin, Jerry Adler, Linda Stone, George Dyson, Peter Schwartz, Roger Schank, Irene Pepperberg, Alexander Vilenkin, Stephen Kosslyn, Robert Provine, Samuel Barondes, Daniel Everett, John Gottman, Juan Enriquez, Carlo Rovelli, Haim Harari, Kevin Kelly, Jean Pigozzi, Martin Seligman, James O'Donnell, Keith Devlin, Piet Hut, Andrew Brown, Donald Hoffman, Gerald Holton, Howard Rheingold, Pamela McCorduck, Michael Shermer, David G. Myers, Steven Pinker, Marc D. Hauser, Howard Gardner, Alun Anderson, Lawrence Krauss, Chris Anderson, Geoffrey Carr, Daniel Goleman, Walter Isaacson, Daniel C. Dennett.
Há de tudo lá, mas, sobretudo, uma reflexão a respeito dos dias atuais, projetada no futuro. Esse olhar de esperança é contagioso e vale cada segundo (ou horas) que se dedica à leitura.
Escolha o seu predileto, comece por ele, ou ao acaso...descubra o que pensa sobre a construção de um hospital infantil em Londres; como o mundo tem sido considerado menos violento; o impacto positivo das ciências e tecnologia no cotidiano; a viabilidade do uso de energias limpas; a vida e a expansão do universo; o futuro das ciências sociais; a persistência e incremento no estudo da História; a inter-relação artista-público; certos comportamentos adquiridos após debates públicos e votações; o fim da devastação; a explicação do mundo subatômico com o funcionamento do Large Hadron Collider; a educação baseada em conceitos científicos evidentes; as melhores condições de envelhecimento e morte; e, a minha preferida: que o público passe a ser mais cético e desconfiado em relação às ciências, passando mais tempo olhando para cima, a apreciar a constelação de coisas que as ciências podem desenvolver do que para baixo, esperando o que elas deveriam lhes proporcionar (segundo Roger Highfield).
Aproveite, também, para pensar na questão. É um belo exercício de cidadania. Boa leitura!

Escrito por Silvia Cléa às 15h37
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Hummm que buquet!

(45street)

Olfato: aprecie sem moderação...enquanto puder.
A frase acima, apesar de soar estranha, reflete a realidade de mais de 3 milhões de adultos americanos. Estudos recentes realizados pelo Smell & Taste Center (na Filadélfia, EUA) demonstram que a disfunção olfatória atinge metade da população cuja idade esteja entre 65 e 80 anos, e, 75 % entre os maiores de 80 anos.
Doty, em seu trabalho “Clinical Studies of Olfaction”, sita a importância das conseqüências dos distúrbios do que vou chamar aqui “dupla olfato-paladar” (pois, tanto clinicamente, quanto para o paciente em si, tais sintomas são muito difíceis de serem separados):

  • prejuízo da qualidade de vida;
  • aumento dos riscos de acidentes com alimentos estragados e vazamentos de gás;
  • comprometimento vocacional;
  • mudanças de hábitos e de padrões alimentares, que podem causar algum impacto sobre a saúde ou piorar a doença de base, quando existente (p.ex. aumento do consumo de sal, em hipertensos, ou de açúcar, em diabéticos);

Outra relação importante que se tem feito é com a Doença de Parkinson e a Doença de Alzheimer, voltando-se os estudos do olfato às doenças neurodegenerativas.
Na Doença de Parkinson, o olfato está comprometido (quanto à discriminação, identificação e detecção) em 70 a 90% dos casos, embora apenas 28% dos pacientes relatem tal queixa.
Com o objetivo de traduzir o “Teste Breve de Identificação de 12 Cheiros”, desenvolvido pela Universidade da Pensilvânia (TICUP), avaliar a capacidade de identificação olfatória em 50 pacientes com Doença de Parkinson através do TICUP e compará-la com a de 76 indivíduos normais, Quagliato e cols realizaram o trabalho “Alterações do olfato na doença de Parkinson”, em que correlacionaram o comprometimento olfatório com estágio da Doença de Parkinson (classificação de Hoehn e Yahr), pontuação na Escala Unificada da Doença de Parkinson (UPDRS) e dados epidemiológicos dos pacientes.

Como resultados, encontraram dados estatisticamente significativos que comprovaram que a intensidade da hiposmia correlacionou-se positivamente com a idade e com o estágio da Doença de Parkinson, mas não com a gravidade, nem com o tempo de duração da doença.
Outro aspecto, diz respeito aos portadores de tremor em repouso (que é um dos sinais preditivos do diagnóstico de Doença de Parkinson): ao pontuarem em níveis inferiores ao grupo controle, apontaram para a sensibilidade diagnóstica do método. Além disso, suas características sugerem para que este seja um instrumento útil no diagnóstico diferencial das Síndromes parkinsonianas.
Devido ao baixo custo e à facilidade de administração, o referido teste mostra-se um instrumento diagnóstico sensível para pessoas com risco de desenvolver Doença de Parkinson e quando associado a outros sinais sutis poderá ser um marcador da fase pré-sintomática da doença.

Assim, além dos avanços para as doenças neurodegenerativas, o trabalho disponibilizou aos brasileiros importante instrumento de aplicação que vem sendo utilizado mundialmente nos estudos de acuidade olfativa. Sigamos, agora, com mais atenção a tais sinais...



Escrito por Silvia Cléa às 12h57
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