A quem interessa?

No final de agosto foi publicado, no BMC Genomics, artigo (“Effect of active smoking on the human bronchial epithelium transcriptome”) cuja chamada alertava para o fato de que ex-fumantes ainda estavam em risco. Assim a notícia alastrou-se por toda a imprensa.
Acontece que quem lê (principalmente os fumantes) só percebe o que quer, ou seja, “que não adianta largar o cigarro que o câncer virá de qualquer jeito”. Esse tipo de matéria é, na verdade, um desserviço à sociedade!
O trabalho científico, apesar de publicado em uma revista respeitada (cujo índice de impacto é 4,03), foi desenvolvido utilizando-se um pequeno número de sujeitos (24 na fase de pesquisa e 22 na fase de validação). As conclusões foram preliminares no sentido de indicadores, ou seja, não há nada definitivo (o que é muito raro de se encontrar em pesquisas científicas), foram encontradas alterações em determinados genes que poderiam sugerir a possibilidade de desenvolvimento de câncer.
Após a matéria ser publicada em diversos meios de comunicação, sem o devido complemento esclarecedor em relação aos métodos de pesquisa e, principalmente, quanto aos demais benefícios de um tratamento antitabagismo, houve muitos pacientes que se dirigiram ao consultório com o discurso de que não valeria a pena todo o sacrifício já que seu prognóstico estaria fechado...
Assim, voltamos a esclarecer que alguns dos principais benefícios de abandonar o tabagismo são imensos e começam a surgir rapidamente:

Vinte minutos depois do último cigarro: a pressão arterial começa a baixar;

Um dia sem fumar: os níveis de monóxido de carbono nos pulmões voltam ao normal;

Dois dias sem fumar: já não há nicotina no organismo e a língua volta a perceber melhor o sabor dos alimentos;

Após três meses: os pulmões e a circulação melhoram;

Um ano depois: o risco de infarto cai pela metade;

Dez anos depois: o risco de câncer de pulmão cai pela metade;

Quinze anos depois: o risco de infartos e derrames é o mesmo de uma pessoa que nunca fumou na vida.

Ou seja, vale (e muito) tentar parar de fumar...sempre!

Este post faz parte do tema de setembro do Roda, “A importância de comunicar a dúvida ao leigo”, portanto, os comentários devem ser feitos lá naquele blog, ok?



Escrito por Silvia Cléa às 22h54
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Estigma

Um letreiro luminoso piscante bem no meio da testa...é assim que o portador de determinadas doenças se sente ao perceber os olhares das pessoas com quem convive devido ao preconceito que estas têm em relação à sua doença. Este preconceito cresce, e por conseguinte seu estigma, conforme diminui a idade do portador, com uma agravante: as crianças não têm subsídio psicológico para lidar com tal situação.
A partir desta semana começo a falar de uma série de doenças crônicas, cujos prejuízos sociais foram apontados como sendo os mais danosos. Devido ao fato de ter sido comemorado nesta segunda-feira o Dia Latino Americano da Epilepsia, esta é a primeira doença.
Pense em um adolescente que descobre-se epiléptico aos 16 ou 17 anos: época em que está sonhando em aprender a dirigir, quer viajar sozinho(a) com os amigos(as). O impacto da primeira crise faz seu mundo ruir, o ver-se doente, dependente de medicamentos pelo restante da vida, com crises que podem acontecer a qualquer hora do dia ou da noite, junto a quaisquer pessoas (e se eu estiver transando?) acaba com sua sensação de imortalidade...Enfim, são tantos os questionamentos e é tanta a vergonha, que a opção mais comum é esconder a doença. Erra por não assumir para si e para os outros a doença (que poderiam ajudar, quando houver uma crise) e por, indiretamente, fomentar o preconceito contido na ignorância.
Se você for um epiléptico(a) deve contar aos seus amigos, explicar-lhes o que é a doença e como ela se manifesta: o que são as ausências, as convulsões; que após as crises você fica um período confuso(a) e precisa descansar, ou seja, que as crises são auto-limitadas (têm uma duração de alguns minutos, começando e terminando espontaneamente). Principalmente em seu local de estudo e/ou trabalho, deve deixar bem claro que Epilepsia não tem nada a ver com loucura e nem é contagiosa!
Quando as pessoas quiserem te ajudar, caso você venha a ter alguma crise perto delas (ou outra pessoa que também seja epiléptica), elas devem:
 * primeiramente ficar calmas e acalmar quem estiver por perto;
 * tentar te segurar, para que você não se machuque, deitando-o(a) de lado e protegendo sua cabeça (pode ser a própria mão na falta de algo macio);
 * durante a crise, procurem soltar as roupas que estejam muito justas ao redor do pescoço;
 * esperem a crise terminar e se ofereçam a chamar um táxi ou parente para levá-lo(a) para casa;
 * não devem colocar nada na sua boca, porque você não vai engolir a sua língua!

É importante também esclarecer que existem determinadas circunstâncias em que se é necessário o socorro médico / ambulância:
 * se a crise ocorrer dentro d’água (piscina, rio, lago, cachoeira, mar, banheira ou chuveiro);
 * se além de epiléptica a pessoa estiver traumatizada, grávida ou for diabética;
 * se a crise convulsiva demorar mais do que 5 minutos;
 * se uma segunda crise começar assim que a primeira tiver terminado;
 * se o retorno da consciência não se der logo após o término dos abalos da crise;

Outro grave problema do estigma são os efeitos colaterais causados pelos medicamentos. Apesar de nos últimos 20 anos os avanços em termos de controle das crises ter sido grande e também em relação a minimizar os efeitos colaterais, é impossível bani-los; e, em relação às drogas antiepilépticas (DAE) há relatos de situações bastante vexaminosas, tais como sonolência, rebaixamento cognitivo, etc.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), a Liga Internacional contra a Epilepsia (ILAE) e o Bureau Internacional das Epilepsias (IBE) estão trabalhando juntos numa campanha global (Epilepsia fora das sombras), que também objetiva ajudar os portadores de epilepsia a entender melhor sua condição, a analisar as razões do estigma e, se não for possível eliminá-lo, pelo menos melhorar a qualidade de vida e o ajustamento psicossocial.

Aproveitando a oportunidade, acabei de ler “O Epiléptico”, de David B., que acaba de sair pela Conrad Editora, é uma História em Quadrinhos em que o autor conta as agruras da família para lidar e tratar da doença do irmão; é apenas o primeiro de três volumes, mas para quem estuda o assunto é imperdível!



Escrito por Silvia Cléa às 01h06
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